Temas de Psicologia

Abril 7, 2008

Carolina Michaelis

Filed under: Actualidade,Crianças / Adolescentes,Educação — S. F. @ 1:53 pm

A poeira ainda não assentou nesta história, porque de imediato vieram mais histórias, mais casos, mais episódios que mostram a suposta monstruosidade que acontece diariamente nas escolas hoje. A minha opinião a este respeito enquanto psicóloga colide com a opinião enquanto cidadã e enquanto ex-aluna. A este respeito, li aqui um relato de uma cidadã que lembra como, quando ela própria era adolescente e estudante, as situações de violência aconteciam. É um facto: sempre existiu indisciplina, bullying, violência… acontece que agora estes acontecimentos têm outra visibilidade, têm outro impacto e, se calhar, até acontecem em maior número.

Como defendi noutros espaços e conversas, sinto por parte de muitos pais e encarregados de educação uma grande desresponsabilização pela educação dos filhos, vivendo-se um permanente jogo do empurra de responsabilidades da Escola para a Família e vice-versa. Acredito que importa responsabilizar os pais como princiapais agentes educativos e principais modelos. Os encarregados de educação têm o dever e o direito de estar informados a respeito do comportamento, aproveitamento e evolução dos seus educandos, têm o direito e o dever de exigir que os seus educandos sejam respeitados na escola e de exigir-lhes (aos educandos) o mesmo respeito para com os demais agentes educativos (professores, auxiliares, colegas, etc).

Porém, não é de todo saudável participar neste jogo do empurra e atirar culpas para a família. Enquanto Psicóloga não posso deixar de chamar a atenção para a falta de técnicos vários nas escolas e comunidades educativas. Adiantou-se a hipótese de as escolas virem a ter carta branca para contratarem técnicos quando as escolas se confrontarem com situações de violência extrema… Porém, importa dizer que o trabalho principal deve ser preventivo e como tal as Escolas deviam ter Psicólogos, Psicopedagogos, Técnicos de Serviço Social e outros, a tempo inteiro, dedicados a um trabalho não só interventivo, mas também e fundamentalmente preventivo. Infelizmente, os governantes (e atenção, não procuro atirar pedras ao actual Governo, porque esta falha é já antiga e tem-se perpetuado consecutivamente) ainda não perceberam os ganhos que terão a médio e longo prazo se investirem nestes profissionais. Ganhos que se traduzem em dinheiro, em educação, na taxa de criminalidade, etc. Mas os governantes têm vistas curtas e esperam que tudo tenha resultados imediatos e assim se vão prolongando problemas e adiando as soluções…

Ainda a respeito do trabalho feito pelos Psicólogos. Li em vários locais, nomeadamente nos comentários a várias notícias publicadas no Público online ou em blogs vários, pessoas que levantam a voz contra a actuação dos profissionais de Psicologia, acusando-nos de protegermos e vitimizarmos em vez de responsabilizarmos os adolescentes e crianças com comportamentos semelhantes ao da adolescente da Carolina Michaelis. Infelizmente, verifica-se ainda em Portugal um grande desconhecimento e ignorância a respeito do que é a Psicologia. É verdade que cabe a nós, Psicólogos, desmistificar a nossa ciência, partir pedra e esclarecer preconceitos. Na verdade, enquanto Psicóloga o meu trabalho passa pela responsabilização das pessoas pelos seus comportamentos e decisões, enquadrando e dando espaço para ouvir e trabalhar as suas angústias, medos e sofrimentos. Porque ser um agressor não implica que não seja alguém em sofrimento, mas o facto de estar em sofrimento não atenua as responsabilidades nem diminui o controlo que temos sobre decisões e comportamentos… E é este trabalho que pode ser feito nas escolas, uma vez que o trabalho de um Psicólogo numa escola vai muito além da Orientação Escolar e Vocacional, incidindo frequentemente na Educação (dificuldades de aprendizagem, comportamento, etc) e muitas vezes no âmbito Clínico, Familiar e Comunitário. Passa também pela promoção de competências e estratégias que permitam aos alunos aprender a resolver os problemas, conflitos e obstáculos sem ser pela via da violência. Enfim, um leque tão amplo de acções, que devem ser desenvolvidas em equipas multidiscplinares (ou seja, em equipa com Professores, Assistentes Sociais, Terapeutas da Fala, Psicopedagogos, etc.) e que devem ser permanentes, contínuas. Não devem ser um recurso tipo bombeiro… actualmente, importa intervir nestas situações, mas também importa começar desde já a criar os espaços e as condições para agir preventivamente.

No Fórum dos Psicólogos, a discussão a respeito deste caso da Carolina Michaelis tocou vários pontos… em algumas partes a discussão perde-se, mas tem opiniões muito válidas e que deviam ser lidas com atenção pelos Srs. Primeiro-Ministro e Ministra da Educação.

E como o texto já vai longo e ainda muito se poderá acrescentar, ficam as reticências, que permitem os acrescentos, as divergências, as opiniões…

Aqui nos encontraremos!🙂

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