Temas de Psicologia

Julho 26, 2007

Psicologia ou Psicologias?

Filed under: Actividade Profissional,Actualidade — S. F. @ 6:05 pm

83066.jpgHá uma questão que gera inúmeras discussões entre psicólogos e estudantes de psicologia e que se prende com a facilidade com que um licenciado numa determinada área da psicologia pode desenvolver actividade noutra área. O exemplo comum: licenciado em Psicologia (área Clínica) trabalhar em Recrutamento e Selecção.

Penso que, na falta de uma Ordem que regularize a situação dos Psicólogos em Portugal, cabe a cada profissional o reconhecimento das suas competências e das suas limitações, aceitando humildemente que, seja como for, estamos num contínuo processo de aprendizagem e aquisição e desenvolvimento de competências. Assim, um Psicólogo cuja pré-especialização foi em Clínica, tendo inclusivé realizado o estágio académico nesta área, deve sempre reconhecer as suas limitações na hora de enviar “a torto e a direito” currículos para cargos geralmente ocupados por colegas da área Organizacional e do Trabalho. Não quero com isto dizer, porém, que não o possa fazer. Antes de tudo, ao terminar a licenciatura (nos moldes anteriores à entrada em vigor do processo de Bolonha), somos Psicólogos. (ponto final, parágrafo!!!) A pré-especialização (área escolhida, por norma no 4º ou 5º ano da licenciatura) simplesmente nos prepara mais para a área x ou y, não sendo porém limitativa no que respeita às áreas em que podemos desenvolver actividade no futuro. Não concordo, aliás, que à saída da faculdade sejamos Psicólogos Clínicos, Psicólogos Educacionais, Psicólogos Criminais, Psicólogos Organizacionais, etc. Somos Psicólogos, apenas. O resto desenvolve-se com o trabalho, com a formação contínua que nunca deve ser descurada, com a prática.

Por outro lado, compreendo quando surge uma certa estranheza e revolta quando vemos psicólogos de outras áreas que não clínica, a exercerem actividade em clínica. (E acabo de tocar numa grande ferida do mundo da psicologia.) Compreendo porque, ao passo que enquanto psicólogos todos estamos preparados para lidar com pessoas, fazer avaliação psicológica, etc. etc. etc., a prática clínica exige competências que só se adquirem e desenvolvem com muito treino, começando inevitavelmente num estágio supervisionado (aliás, é indispensável a supervisão permanente). Note-se que não considero os profissionais vindos da área clínica mais ou menos psicólogos que os das restantes áreas. Aliás, não compreendo (nem concordo) que muitos colegas de clínica, imediatamente após a saída da faculdade, comecem a desenvolver actividade a título individual, sem qualquer supervisão ou acompanhamento.  Relativamente aos profissionais de outras áreas (organizacional, criminal…), acredito que podem desenvolver actividade em clínica, depois de terem a formação adequada (que não pós-graduações de 30 ou 40 horas!) e muita prática supervisionada.

Isto tudo para lembrar que nunca é demais reconhecer o quanto podemos aprender e que a área de pré-especialização escolhida na faculdade não representa nenhuma amarra, não é limitativa dos horizontes futuros.

Pessoalmente, sendo Psicóloga (da área clínica e da saúde) tenho concorrido para Estágios na área de Recrutamento e Selecção, estágios esses que me permitam aprender, desenvolver competências numa área que não a escolhida na faculdade, que me permitam alargar horizontes e crescer como profissional da psicologia. Não assumo à partida que sei tudo o que preciso para desenvolver actividade na área, porque não sei, antes assumo uma postura de aprendizagem e muita vontade de trabalhar. Concorro para estágios denominados curriculares – a remuneração limita-se a uma bolsa de subsídio de transporte e de alimentação – que dão essa oportunidade de aprendizagem.

Acredito que muitos colegas discordam da minha opinião, outros concordam, outros hão-de considerá-la incompleta. Este é, simplesmente, um espaço de reflexão e partilha de opiniões.

Aqui nos encontraremos! 🙂

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Julho 3, 2007

Andar, para além da dor

Filed under: Livros,Saúde / Doença — S. F. @ 5:49 pm

andarparaalemdador.jpgPara apresentar este livro, começo a citar o Professor Mário Viana Queiroz, que assim o descreve, no prefácio:

“Esta autobiografia de uma doente com Artrite Reumatóide lê-se de um fôlego, sem pausas, até terminar a espantosa história que nos narra.
Todos os reumatologistas, direi mais, todos os médicos, a deveriam ler.
(…)
Lendo-a apercebemo-nos melhor das nossas limitações e da nossa ignorância (“os médicos não sabem nada! dizia a doente na sua infância), da solidão e pobreza das enfermarias dos nossos grandes hospitais, da desumanização da medicina que tantas vezes somos obrigados a praticar (…).”

Andar, para além da dor” é contado e, principalmente, vivido na primeira pessoa – desde as primeiras dores na infância, ao diagnóstico, a evolução da doença e a luta para “além da dor” continuar a viver.

A autora, Fernanda Ruaz, assim nos recebe quando abrimos o livro:

“Escrevi este livro a pensar em si, doente crónico como eu, principalmente se ainda sente o corpo como amarra e a solidão por companhia. Ao longo da vida, fui descobrindo a alegria da superação dos limites e o poder da comunicação. É isso que quero partilhar consigo. Talvez ao ler-me, descubra o seu modo próprio de andar…”

Partilhando a solidão, os medos, as angústias por que passou, “Andar, para além da dor” vai de encontro aos doentes crónicos que nele revêm as suas próprias vivências, e procura ir de encontro a todos os profissionais de saúde que aqui podem sentir as dores com que muitas vezes (não) lidam no dia-a-dia. Vemos todo o processo de adaptação a uma doença – Artrite Reumatóide – do ponto de vista físico, social, psicológico.

Mais uma vez, partilho aqui algumas passagens representativas do livro.

Durante a infância… “Ontem à noite rezei para hoje acordar sem dores. Mas Deus não me ouviu ou não me entendeu. Acho que ninguém me entende. Ninguém.”

“No hospital só há sofrimento. Tudo é triste. A doença é muito triste. Os corpos doentes são feios. Ter um corpo já não é bom. Ter um corpo doente ainda é pior. Porque será que existe a dor?”

“Todos os dias travo uma batalha contra as minhas limitações.”

“A maior parte das vezes sou uma «Artrite Reumatóide» e não uma pessoa, ou então sou eu que sinto assim.”

Embora tenha seleccionado estes trechos, a mensagem que Fernanda Ruaz nos passa é de coragem, esperança e luta. O último capítulo chama-se “eu consegui correr!” – um sonho alcançado ao fim de muitos anos, de muito sofrimento. Aliás, António Alçada Baptista, no Prefácio, diz-nos:

É possível, perante a adversidade, alguém impor a sua personalidade, recusando sempre aceitar a derrota. Ela (Fernanda Ruaz) venceu, não foi vencida.

(…)

Quase todas as coisas da nossa vida dependem da nossa vontade e da maneira como olhamos para o mundo.

Andar, para além da dor – Fernanda Ruaz, Edições Arrábida

Aqui nos encontraremos! 🙂

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