Temas de Psicologia

Maio 8, 2007

E depois do curso? A questão do trabalho não-remunerado.

Filed under: Actividade Profissional — S. F. @ 3:55 pm

As primeiras ideias recaíram sobre livros ou temáticas em específico que tenham sido abordadas em conferências, seminários, formações ou até numa aula que até hoje se recorda. Enfim… Mas isso fica para futuros posts.

Por agora, falemos de um assunto que é recorrente entre os recém-licenciados e que preocupa também aqueles que estão a preparar-se para sair da faculdade.

Como é depois que se queimam/benzem as fitas?

A primeira palavra que ocorre é: DIFÍCIL! Muito difícil…
Vamos à procura e encontramos muitas portas fechadas. Alguns têm a sorte de ter uma boa ajuda, alguém que até consegue falar com o director de uma clínica/lar/empresa/colégio que até possa precisar de um psicólogo. Outros ficam a fazer estágio profissional nos locais onde fizeram estágio académico. Muitos acabam por se render a ofertas noutras áreas da psicologia (e esta polémica deixemos para outro post). Muitos mais vêm-se obrigados a abraçarem outras funções, outros trabalhos para ganharem algum dinheiro.

Face às dificuldades em exercer como psicólogo, muitos aceitam trabalhar de graça. Não gosto de utilizar o termo voluntariado, pois este termo refere-se a algo totalmente diferente! Refiro-me a situações precárias, em que psicólogos prestam serviços a instituições sem receberem qualquer remuneração, nem sequer ajudas de custo, como alimentação e transporte.

O que nos leva a aceitar estas situações?

Pessoalmente, opus-me e resisti a esta ideia durante muito tempo, especialmente durante o último ano da licenciatura e no período após o término da mesma. Acredito que, se todos os “voluntários” cessassem as suas funções, as entidades começariam a valorizar, começariam a respeitar e a remunerar pelos serviços prestados. Porém, as entidades não precisam de o fazer porque, atrás de um “voluntário” revoltado, existem filas e filas de “voluntários” dispostos a substituí-lo. E porquê?

Concluí o curso em Outubro de 2006. Já perdi a conta aos currículos enviados, respostas a anúncios e candidaturas espontâneas. Entrevistas já não são propriamente novidade. Já corri o país atrás do sonho do estágio profissional do Programa de Estágios Profissionais na Administração Local (famosos PEPAL). E percebo porque tantos e tantos colegas aceitam submeter-se a situações precárias, nas quais parece que estarem a trabalhar e a prestar um serviço que a instituição reconhece como fundamental é entendido como um favor que a instituição presta ao “voluntário“. Percebo porque vejo o interesse de quem entrevista pelos colegas que têm essa experiência. Percebo pela desilusão quando respondo que “não, voluntariado desse não fiz“. Percebo pela forma como me dizem “pois, assim não tem qualquer experiência“. Percebo porque esses colegas recusaram-se a travar uma luta que eu tentei travar, porque eles sabiam que era esforço em vão. Eles aceitaram as regras que eu e muitos outros ainda não queremos aceitar. Essas regras que ditam que psicólogo recém-licenciado em Portugal deve, após o curso, adquirir mais experiência trabalhando de graça.

E percebo, finalmente, porque eu também, passados 7 meses desde a conclusão do curso, passado um ano desde o início da procura de trabalho, também eu ansiosamente aguardo a oportunidade de trabalhar, ser psicóloga, mesmo sem ser remunerada.

Enfim… Como é depois do curso? O texto poderia expandir-se infinitamente, podíamos falar da acumulação de locais de trabalho – uma hora aqui, três acolá e mais duas além – sem que nenhum ou a acumulação de todos seja realmente rentável, segura. Podíamos falar dos recibos verdes. Podíamos falar das vagas que não abrem à anos para psicólogos nem em escolas nem nos serviços de saúde. Mas, hoje, a opção recaiu sobre esta ferida que tanto mexe connosco! Nenhum de nós concorda, nenhum acha correcto… e (quase) todos continuamos a perpetuar esta precariedade.

Bem, o blog é recente e não muito difundido, mas gostaria que partilhassem as vossas ideias: colegas que estão a terminar o curso, que expectativas têm; colegas que já terminaram, como tem sido o vosso percurso; a todos, o que pensam desta questão do trabalho não-remunerado, o que pensam e também qual a vossa disponibilidade para aceitarem um trabalho nessas condições.

Aqui nos encontraremos!🙂

4 comentários »

  1. Olá Srª Drª!

    Parabéns pelo teu blog. Li muito rapidamente o teu post e olhei para a apresentação do blog e muito sinceramente gostei.

    Linda, desejo-te tudo de bom e que a partir de agora publiques noticias mais animadoras para os recém licenciados em Psicologia, incluindo-te a ti claro.

    Beijinhos.

    Comentar por Helena Oliveira — Maio 14, 2007 @ 3:30 pm | Responder

  2. Oi!!

    Èum testemunho desanimador mas que reflecte o panorama no nosso país!
    Há esperança que possa haver ORDEM nisto…

    Mas não desanimes!Sei que com as tuas capacidades e cpompetências haverás de criar o teu próprio caminho de sucesso!
    Estou a torcer por ti!

    Bjs de saudades da Amora!

    Comentar por Patricia Marques — Maio 23, 2007 @ 11:01 pm | Responder

  3. Cara colega,

    Terminei o meu curso no passado mes de Julho na area clinica sistemica na faculdade classica de lisboa e quando fui ao Centro de Emprego da minha area de residencia o que disse foi logo para nao me colocarem em nenhum estagio profissional.

    Faço voluntariado desde os 17 anos e mesmo com tanta experiencia sinto que tenho muito a aprender: aprender a ganhar o meu dinheiro e geri-lo, aprender a negociar condiçoes de trabalho e ter poder nos projectos em que participo.

    Ainda nao arranjei trabalho mas tambem so decorreram 2 meses e pelo menos respondem as minhas cartas de apresentaçao e curriculos algumas entidades (uma escola, um nucleo de psicologia, etc.). Dizem que eu telefone dali a um tempo para ver da minha possibilidade de colaboraçao, e que agora nao necessitam mas que me contactarao se necessitarem de alguem com as minhas competencias, respectivamente Quero acreditar que sim mas isso nao me faz parar.

    Enquanto nao tenho emprego canto e danço e pretendo ingressar no ano lectivo de 2009/2010 numa formaçao em Desenvolvimento Pessoal e Terapia Artistico-Expressiva pois e algo que me atrai por demais.

    De qualquer modo, concordo contigo e por isso nao aceito mais trabalho de graça que e diferente de voluntariado – pois aos 17 anos havia deveres a vontade, agora quase que se torna algo a que nos forçam pela ?calada’ com frases como ‘mas assim nao tem experiencia…’

    Desejo-te toda a sorte do mundo e se um dia precisares de algo de Oeiras. Fala comigo:)

    Felicidades de todos os tipos pois elas sao muitas,

    Joana Mealha dos Santos

    Comentar por Joana Mealha dos Santos — Outubro 2, 2007 @ 12:47 am | Responder

  4. Bem, passado muito tempo venho responder aos comentários.

    Helena, passaram-se uns quantos meses sem que as notícias animadoras tenham surgido. Pelo menos o ano novo já chegou e as notícias esperam-se melhor de agora em diante🙂

    Patrícia,
    a ordem há-de estar por aí… We hope! Um beijinho muito grande, muitas saudades da Amora…🙂

    Joana,
    espero que por esta altura já o percurso profissional seja bem sorridente. Saí também da FPCEUL, casa que me deixou muitas saudades, em Outubro de 2006😛

    **

    Comentar por S. F. — Janeiro 3, 2008 @ 11:02 pm | Responder


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